
Além do Maio Amarelo: a importância da segurança como ativo estratégico da gestão de frotas
Em meio a uma rotina marcada pela administração de planilhas de depreciação, custos de manutenção e renovação de ativos, muitos gestores de frotas elencam os veículos como os protagonistas exclusivos da operação. A limitação dessa visão, no entanto, gera uma miopia estratégica sobre o papel da segurança como um motor crucial de eficiência e rentabilidade — o último levantamento divulgado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) revela que os acidentes em rodovias geram custos anuais de R$ 16,8 bilhões.
Na esteira das discussões do Maio Amarelo, movimento global de conscientização sobre a redução de acidentes e mortes no trânsito, um número crescente de empresas vêm incorporando o tema como eixo central e recorrente dos seus planejamentos de mobilidade e logística.
Os desafios e oportunidades que envolvem a criação de réguas de segurança eficientes e escaláveis foram tema de um episódio do podcast Radar Ayvens. Apresentado por Bruno Santos, Head Comercial do Time de Relacionamento da Ayvens, o programa trouxe a visão de Raphael Muller, Regional Manager de Fleet Operations da Zoetis para a América Latina, sobre os novos caminhos que vêm sendo trilhados no setor.
À frente da gestão de frotas de uma das principais empresas de saúde animal do país, o executivo destacou a relevância das iniciativas educacionais no engajamento e na conscientização de condutores sobre normas de segurança. “É preciso estabelecer um plano de comunicação consistente sobre o assunto. A segurança precisa ser um tópico vivo e presente nas interações diárias entre lideranças e colaboradores para que não se perca no automatismo da rotina", explicou.
A necessidade de criar iniciativas que fortaleçam os exemplos de segurança foram reforçadas por Bruno Santos:
Utilizar matriz de análises como a Pirâmide de Bird, que é um conceito clássico de segurança do trabalho, que avalia a relação entre acidentes leves e graves. Além das ferramentas certas que são fundamentais para criar soluções aplicáveis no dia a dia. Mas no final das contas, o que faz a diferença é liderar pelo exemplo aplicando essas ferramentas e engajando as pessoas para que cuidem do principal capital que é a vida.
Para aplicar essa teoria na prática, Raphel Muller destaca para a criação de estruturas que abram espaço para modelos preditivos de análise de risco. Entre os exemplos dessa abordagem, ele aponta a combinação de metodologias de gestão (como a Pirâmide Bird) e das soluções de telemetria além da importância de contar com parceiros estratégicos para promover a integração dos processos e monitorar indicadores de risco (como frenagens bruscas, excesso de velocidade, índices de sinistralidade e desgastes de peças) antes que se convertam em danos irreversíveis:
A maioria dos eventos que levam a acidentes graves, como padrões de frenagem e velocidade, pode ser identificada nos resultados de telemetria. Por isso, é essencial criar uma cultura de dados que vá além das métricas de performance, contemplando a segurança como eixo central da operação. O portal My Ayvens Fleet, por exemplo, reúne uma infinidade de informações essenciais para identificar as origens de multas e causas de sinistros.
A gestão com a boa aplicação das ferramentas é outro fator decisivo para fortalecer a segurança das jornadas de mobilidade corporativa. Na Zoetis, por exemplo, os condutores são avisados por um alerta sonoro toda vez que ultrapassam o limite de velocidade de uma via. “Desabilitamos o sistema durante um mês para testar a sua eficiência e percebemos que os casos de excesso subiram rapidamente. Muitos acidentes acontecem quando profissionais se acomodam na rotina e deixam de enxergar a segurança como preocupação diária”, diz.
As barreiras de implementação de novas ferramentas e rotinas também envolvem as resistências culturais e a falta de aderência às situações reais vividas pelos condutores no seu dia a dia. Em resposta a esses desafios, a companhia aposta na elaboração de políticas de segurança baseadas em pilares de clareza, colaboração e responsabilidade compartilhada (saiba mais abaixo).
Estrutura de governança: três pilares fundamentais para criar políticas de segurança na gestão de frotas
- Clareza e objetividade
As guidelines e os documentos que estabelecem as regras devem ser objetivos e acessíveis, evitando burocracias e termos técnicos que dificultem o entendimento dos padrões e dos códigos de conduta estabelecidos.
- Construção colaborativa
Inclusão dos condutores no processo de elaboração das regras, incluindo abertura a críticas e revisões periódicas a partir de mudanças de mercado e feedbacks coletados em campo.
- Responsabilidade compartilhada
Promoção do senso de accountability e definição clara de direitos e deveres de gestores de frotas (exemplos: manutenção, seguro, suporte) e condutores (exemplos: preservação dos veículos, respeito às leis, uso de tecnologias).
Retorno sobre investimento
Mais do que uma questão de responsabilidade corporativa, as ferramentas de HSE (Saúde, Segurança e Meio Ambiente) devem ser interpretadas como um motor de rentabilidade e eficiência operacional. Entre os impactos nas linhas financeiras, estão benefícios como redução dos custos de manutenção, longevidade dos componentes, consumo de combustível e valor de revenda dos veículos.
Dentro desse contexto de indicadores de performance (KPIs), Raphael destaca que a redução de acidentes contribui diretamente para uma precificação mais eficiente dos serviços prestados, além de influenciar positivamente a avaliação da frota. Dessa forma, o pilar de segurança pode, sim, gerar savings relevantes para a empresa.
Para converter os diferenciais de segurança em vantagens competitivas reais, ele destaca o papel das iniciativas de treinamento e capacitação. No caso da Zoetis, as trilhas de aprendizado vêm sendo facilitadas por meio de formatos dinâmicos e interativos, como simuladores virtuais de situações de risco e treinamentos rápidos que podem ser acessados nos smartphones dos usuários via QR Codes e eventos como convenção ou webinar. “Em vez de apenas penalizar comportamentos de risco, é preciso desenvolver iniciativas que incentivem os condutores a refletirem sobre as consequências de seus hábitos e ações”, complementa.
Com o objetivo de reforçar essa mentalidade na indústria de mobilidade, a Ayvens vem promovendo uma abordagemintegrada de frentes educacionais, combinando programas de treinamento e plataformas de capacitação voltadas à formação de hábitos de direção segura e responsável, reduzindo despesas com combustível, manutenções corretivas, acidentes e a emissão de substâncias poluentes.
Jornada de maturidade: as etapas fundamentais para a criação de estruturas robustas de segurança
- Cultura de dados
Adoção de matrizes de decisões baseadas em informações compiladas de históricos internos, redes de fornecedores e análises contextualizadas de atividades de campo.
- Tecnologia e inovação
Digitalização de processos, automação de rotinas e incorporação de soluções de monitoramento em tempo real, incluindo iniciativas que fortaleçam a cultura de novas soluções.
- Institucionalização
Criação de políticas oficiais e comitês multidisciplinares, envolvendo a participação ativa de lideranças de áreas-chave da organização (financeiro, jurídico, operações e recursos humanos).
A incorporação do olhar sistêmico sobre os processos, em sua opinião, deve se tornar ainda mais crucial com o avanço das soluções de inteligência artificial sobre as tecnologias de análise, monitoramento e tomada de decisão. Alinhado a essa tendência, o roadmap de mobilidade da Zoetis passou a contemplar novos formatos de colaboração entre talentos humanos e agentes digitais.
Os esforços recentes incluem a implantação da inteligência artificial da Zoetis, que agrega múltiplos modelos de linguagem e machine learning para interpretar volumes massivos de relatórios em poucos segundos. Com resultados consistentes registrados nos meses iniciais, a solução marca o primeiro passo para a consolidação de um futuro cada vez mais orientado pelo equilíbrio entre eficiência, inovação, produtividade e geração de impactos positivos para a sociedade.
“O bem-estar e a segurança no trânsito devem ser a prioridade absoluta de qualquer gestor de frotas. As vantagens competitivas atreladas são uma consequência natural da qualidade dos serviços prestados. Quando há esse compromisso, a IA não substitui o trabalho do gestor, mas permite que ele foque no que realmente importa: a liderança estratégica, o relacionamento com parceiros e, principalmente, o cuidado com as pessoas”, afirma.
Transversalmente a todos esses movimentos, Muller reforça a necessidade de consolidar um ambiente de engajamento e aprendizado contínuo, envolvendo condutores, gestores e a liderança das organizações ao longo do processo. “As informações estão cada vez mais acessíveis, mas é preciso se manter atualizado e conectado à operação para explorar essas possibilidades. É papel do gestor de frotas articular e promover a conscientização e priorização da segurança em toda a organização, estabelecendo comitês especializados, convidando as pessoas a mergulharem nos processos e promovendo o diálogo entre tomadores de decisão”, conclui.






